Esta semana fui ao Porto Canal, ao programa Consultório, falar sobre uma coisa que ouço muito nas consultas: porque é tão difícil desligar a mente nas férias — e o que podemos fazer para descansar a sério. Deixo aqui o essencial, para quem não viu ou quer ter por escrito.
Desligar não é "não fazer nada" — é descansar a sério
Desligar a mente é conseguir deixar o foco do trabalho para trás e voltar a ti: ao teu descanso, ao teu tempo. O nosso cérebro está preparado para lidar com algum stress — não com stress constante. E é precisamente disso que servem as férias: dar-lhe a pausa de que precisa para depois voltares com energia.
Porque é que é tão difícil relaxar
Vivemos com uma ideia colada à pele: a de que, se estivermos sempre disponíveis, somos mais produtivos e mais responsáveis. Não é verdade — e é essa crença que nos impede de parar.
Além disso, o cérebro não tem um botão de "on/off". Não desliga só porque mudámos de sítio. Por isso, "não vou pensar no trabalho" não funciona: quanto mais tentas não pensar em algo, mais presente ele fica. Desligar prepara-se — e faz-se por substituição, não por proibição.
1. As férias começam um bocadinho antes
Grande parte da ansiedade não vem do que está a acontecer, mas do que ficou em aberto. Por isso, antes de parares: acaba as tarefas pendentes, distribui o que dá para delegar e avisa os teus colegas de que vais estar fora.
Põe uma resposta automática no email — mas o mais importante é não andares a espreitar. Cada email que lês puxa o cérebro de volta ao trabalho e faz com que ele não perceba que estás de férias. E lembra-te de uma coisa que costumo dizer nas consultas: nada depende exclusivamente de ti. Está tudo bem.
2. Impõe limites (também às tecnologias)
Hoje levamos o escritório no bolso. Recebemos emails, notificações, mensagens, chamadas — e não há problema nenhum com isso, desde que sejas tu a controlar. Define, à partida, se e quando vais estar disponível. Não 24 horas por dia: um horário.
Um exemplo: aproveitas o dia com a família das 8 às 19 e, se for mesmo preciso, reservas uma hora ou duas para emails e chamadas. E desliga as notificações. Aquela mensagem que chega gera logo a pergunta "devo responder?", e é por aí que a ansiedade entra — e, com o tempo, o burnout.
3. Muda o foco
Descansar não é ficar parado a olhar para o vazio — para a maioria das pessoas, esse vazio enche-se de ruído mental. O que ajuda é encher o espaço com outra coisa, e não precisas de viajar: coisas perto de casa, estar com amigos e família, passeios, jantares, sair da rotina do costume.
E, ao mesmo tempo, permite-te estar sem fazer nada. As duas coisas cabem: fazer diferente e, noutros momentos, simplesmente parar.
A mente chega uns dias depois do corpo
Isto varia muito de pessoa para pessoa. Há quem desligue mal fecha a porta; e há quem chegue à praia como se o corpo chegasse primeiro e a mente só uns dias depois. É normal — a mente e o corpo nem sempre chegam ao mesmo tempo. Dá-te esse tempo.
Técnicas que ajudam
Respiração, mindfulness e meditação ajudam em qualquer momento — sobretudo para baixar a ansiedade e trazer-te de volta ao presente, à ideia de que agora estás de férias, não no trabalho. A regra é simples: se estás a trabalhar, trabalha; se estás a descansar, descansa mesmo. É isso que, no fim, faz com que voltes mais produtivo.
Quando é mais do que cansaço
Sentir exaustão mesmo antes das férias é comum — e, em geral, recupera-se com a pausa. O burnout é outra coisa: é um problema de saúde que merece atenção e ajuda especializada. Alguns sinais a que vale a pena estar atento: dificuldade em dormir, irritabilidade, cansaço que não passa, dificuldade em concentrar.
O burnout raramente aparece de repente — vai-se construindo em pequenas coisas que normalizamos. E muitas vezes podia ter sido evitado com as ferramentas certas. É parte do que trabalhamos em terapia.
O regresso faz-se aos poucos
Nos últimos dias de férias, a cabeça já está a pensar no trabalho — é quase inevitável. Por isso, o regresso deve ser gradual, com calma, sem exigires tudo de ti no primeiro dia. Vamos voltando aos poucos.
Se sentes que nunca consegues desligar — que o descanso te dá culpa, que a ansiedade não abranda mesmo com tudo tratado — isso não é falta de vontade. É algo que se trabalha. Em terapia, damos-te ferramentas para conseguires parar sem o corpo protestar. Porque, no fundo, ninguém exige tanto de ti como tu próprio — e nada depende exclusivamente de ti.